Parecia já esquecido, parecia mesmo. Não me lembrava, nem
tinha vontade de me lembrar. Maldita a
hora que abri aquela gaveta do armário para procurar uma foto velha que tinha
ali guardada, nem me lembrava que ainda lá estavas tu também. Lembraste daquele
lenço que usavas ao pescoço? Aquele com que eu fiquei no nosso segundo encontro
… esse mesmo! Ainda o tenho, guardado no mesmo lugar que há três anos e oito
meses, dobrado da mesma maneira e com o mesmo cheiro. O teu cheiro, raio das
feromonas que se tendem a atrair por cheiros que nem os sentimos, mas isso são
conversas de cientistas Este sinto, é aquele cheiro dos fins de tarde sentados
no banco do parque, o cheiro das longas conversas ao por do sol, o cheiro das
seis e meia na escadaria da antiga secundária, dos abraços quando nos víamos, das mãos dadas pela rua e dos beijos, daqueles que me davam a segurança e a
certeza que ali estava bem! Claro, não era verdade. Claro que não. Tolice a minha acreditar que tinha aquela pessoa ao meu lado para sempre.
Enfim, vou guarda-lo
novamente, bem dobrado no sitio dele. Que lá fique com o mesmo cheiro por muito
tempo, adormecido com as recordações e saudades que o acarreta, sem me
incomodar.
